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Free Ride in South of Brazil.

Dec 26, 2007 at 1:20
by FreeriderFloripa FreeriderFloripa  
Free Ride in Brazil.
Brief I'll translate to English and to insert photos and videos.Free Ride

Mountain bike de liberdade

Ciclistas Exploradores das Florestas da Ilha de Santa Catarina de Alexandria, do Sul e do Planalto Sul Catarinenses.

Requisitos básicos: Bicicleta, natureza, saúde e amizade.

Qualidades desejáveis: Coragem, cultura geral e conhecimentos de ecologia.

Regras:

* Respeitar a propriedade privada. Sempre pedir autorização antes de adentrar trilhas em terras particulares.
* Respeitar as normas das Unidades de Conservação. Verificar com o órgão ambiental se é permitida a visitação.
* Respeitar a natureza, não coletando nada, exceto seu lixo.
* Não utilizar drogas. O esporte radical é perigoso e exige concentração.
* Utilizar equipamentos de proteção: capacete, colete, joelheira e luvas.
* Inspecionar a bicicleta antes e durante as trilhas.
* Compartilhar as fotos.


A Natureza de Ser (Eder Giovani Savio)

Existe uma crença silenciosa entre os círculos intelectuais mais evoluídos, em consonância com as correntes filosóficas menos respeitadas, de que existe um mistério profundo racionalmente intangível, mas maravilhosamente absorvido pela alma no contato com a natureza selvagem. Diz-se ser algo harmônico no sopro das brisas, no som das águas e em tudo que de divino percorre os campos, as florestas, os desertos e todo o lugar em que o homem não exerce sua colonização dominadora.

Um tempo requintado de esquecimento em que a percepção da transitoriedade da vida se ausenta perenemente, restando a pureza do momento absoluto. É a eternidade em sua essência e em sua única forma tangível. Nesses momentos diz-se haver uma força interna humana que capta as substâncias misteriosas para metabolizar o espírito tornando-o capaz de reverter quadros de deterioração material, curando as doenças, rejuvenescendo os contatos energéticos celulares e trazendo a compreensão intrínseca da existência inexprimível lingüisticamente, impassível de retórica e articulação, intransmissível por qualquer via comunicativa. São momentos de iluminação.

Muitos se perdem tentando explicar essas concepções superiores e caem no abismo obscuro das religiões ou na superficialidade mecânica da ciência. Os menos abastados pela graça costumam buscar-lhe desesperadamente obedecendo a comandos publicitários de aquisição de bens materiais. Outros buscam isolar-lhe os princípios ativos em arte e sentem-se superiores, mas o certo é que não há qualquer fórmula para reproduzir, capturar ou simular eficientemente o fenômeno, exceto a contemplação e a integração física e mental ao ritmo imutável da natureza, com o qual o homem entra em freqüência de igualdade existencial.

O certo é que mesmo nos círculos intelectuais mais evoluídos acredita-se piamente na existência desse mistério e que ele é o tônus da vida. É o ingrediente perdido capaz de explicar o sentido do ser, porque nele não há tempo, espaço e matéria e se encontra na integralidade do ser humano, desde as sensações da pele até o sentimento de amor não cultural. É a filosofia pura da felicidade acessível a qualquer ser humano, sem que ninguém o saiba, tampouco detecte qualquer evidência. Apenas o próprio a concebe e dela regojiza-se em comunhão com tudo que existe dentro da vasta solidão de si mesmo.


Vassoura Bruxólica (FRANKLIN CASCAES)

"É, neste mundo de Deus, há muitos mistérios e esta gente simples aqui da Ilha vive estas coisas quase como uma realidade. Meus lobisomens, bruxas, demônios e boitatás existem". Sempre foi crença do povo hospitaleiro desta Ilha dos famosos bois de mamão que, na Sexta-Feira-Santa, não se deve tomar instrumentos de trabalho para usa-los, seja qual finalidade for. É também costume tradicional deste povo, descendentes de colonos açorianos, que, na Sexta-Feira-Santa, a partir de zero hora, devem banhar-se nas ondas do mar, levando consigo animais domésticos, para purificarem-se e protegerem-se de todos os males do corpo físico e espiritual. As águas colhidas nesta hora servem para todo o tipo de cura. É a fé, longínqua dos tempos, aliada a superstição, ao medo e ao amor pela conservação do corpo físico, na cura dos males que atacam o homem em franca vivencia espiritual e física com o seu Deus. As forcas atuantes de praticas religiosas freiam os instintos animalescos do homem, encaminhando-o, espiritualmente, para viver com bons modos junto com o seu Deus, com a cultura, na sociedade e conseqüentemente com o seu próximo. Entrementes, sempre aparecem nos meandros desses cenários fantásticos, e outros moderados, pessoas que se arrojam contra os poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades freadoras, veículos insubstituíveis de abrandamento de sofrimentos que martirizam e acoitam a criatura humana. Um caso de desrespeito espiritual aconteceu ha muitos anos passados, lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina. A Maria Vivina, moradora da praia dos Naufragados, fez uma aposta com a Carrica, de que, na Sexta-Feira-Santa daquele ano, ela tomaria uma vassoura e com a mesma, varreria o quintal de sua casa e,certeza tinha, nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram um par de tamancos contra uma botina. E firmaram a promessa da aposta, casando-a. Quando a Vivina deu a primeira varredela, a vassoura soltou-se de suas mãos qui nem um relâmpago, metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura sobre o morro do Ribeirão da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço sideral das alturas incomensuráveis da quimera. A Maria Vivina caiu de joelhos no terreiro, rezou e pediu perdão aos céus pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas, chorando copiosamente. A Carrica abraçou-se com ela e ambas choraram e sentiram o amargo do néctar da desobediência humana. Nenhuma das duas era bruxa, porque a vassoura, que e um instrumento de montaria de bruxas, foi embora, viajar pelo espaço sideral, sozinha. Oh! Minha querida Ilha de Santa Catarina de Alexandria, és a graciosa sereia que repousa sobre brancas areias de comoros errantes, sambaquis seculares, banhada pelas ondas acasteladas do oceano, perfumada pela brisa acariciante dos ventos e enxuta com as toalhas felpudas dos raios solares que beijam calorosamente seu corpo mitológico.

Foto: Eder em Fazenda secular abandonada na floresta da Ilha de Santa Catarina. 09/07/2006 - 13:30 h.



Se você é fashion, veio para o lugar errado. Clique aqui e vá para o lugar certo.
Marcela, a Fashion, e a Onça.

Foi assim que ela achou que nasceu para ter a carne comida. Não lhe apeteciam sistemas, análises. Nunca jamais levou em consideração houvesse qualquer ordem na vida. Ignorava absolutamente Freud e Darwin. Não lhe aproveitava observar os montes verdes impregnados de névoa, tampouco as penas coloridas das aves. O movimento lento e suave da onça não lhe remetia à perfeição atingida por milhões de anos de evolução. A dissimulação felina e a consistência poderosa e leve das patas da gata nada lhe lecionavam. Via ali tão somente a morte a lhe espreitar, mas não em sua dimensão transcendental, naturalista ou determinista. Era apenas a mesquinhez do conceito de se dar mal. Assim sempre fora, uma puta de preço médio. Sempre comida, como carne, apenas. Jamais como gente, com o respeito que essa onça faminta agora lhe deferia em maior grau que seus pares de espécie. Seria assim alimento nobre, provavelmente a manter os gatinhos famintos. Seus músculos e licores, formados por diversas naturezas de sais e polímeros de aminoácidos, regados aos glicerídeos tão combatidos em vida, principalmente na barriga e coxas, seriam alimento farto a prover construção do tecido e energia aos filhotes.

Mas assim, sempre estúpida fora, jamais poderia identificar a intenção do animal mais dissimulado da mata atlântica da Serra do Tabuleiro. Aterrorizada, gritava em histeria típica das que nunca tomaram decisão por conta própria. Urrava a clamar por qualquer alma que lhe salvasse do abate. Nem mesmo lhe relampejou qualquer hipótese de enfrentar o bicho com sua astúcia humana. Afinal, se a sua espreita estava um predador aprovado por constantes testes em milhões de anos, ali estava também o único animal que o poderia sobrepujar, o verdadeiro topo da cadeia alimentar, esse sim um matador respeitável, o sapiens.

A onça rodeou-lhe como a catar uma jóia oculta sob as folhas. Não lhe dirigiu o olhar por um instante sequer. Fitava o chão, o horizonte, o nada. Guardara seu intento principal à visão periférica. Na realidade ainda não se decidira pela caça. Quando o fizesse, sim, fixaria o olhar profunda e inexoravelmente à vítima condenada. Já com seus movimentos e reações previstos, saltaria desferindo golpe mortal. Mas hoje não. Provavelmente, ainda em decomposição, as proteínas de algum cateto ou bezerro sustem a vida de seu covil maternal. Apenas catalogara a guria. Sabia de seu ritmo cardíaco, sua temperatura, seus odores, suas reações, sua força. Quase tudo. Só não sabia que já haviam lhe comido a carne, pois essa matéria metafísica não lhe importava. Que fosse uma carcaça, importavam-lhe as células, não a alma. Da próxima vez que a encontrasse não se gastaria em muitas análises, bastaria colhê-la à refeição dos infantes.

Eder Giovani Savio







Obs.1: Se você é uma Vivi, veio para a página errada. Clique aqui e vá para a página certa.

VIVI, A CAPRICHOSA ( Uma garota e sua bicicleta...)

Paredes cinzas, quentes e úmidas. Escuros irritantes, inconvenientes e irremediáveis: a lâmpada, forte, sem lustre, concentraria a luz amarela agressora em um único ponto, arremessando aos olhos estilhaços impertinentes da incandescência de resistência elétrica; a janela, se aberta, escancararia um sol ardido violento, capaz de arrancar a parca umidade protetora e refrescante que salva a pele do dia que já se abafa ao amanhecer, no quarto escuro os fantasmas reinaram a noite toda nos sonhos já quase esquecidos da menina, e agora são expulsos pelas buzinas malcriadas, pelo motores doentes, pelas freadas histéricas. Vivi jamais poderia lembrar o sonho, pois o sonho, no final, misturar-se-ia à realidade sonora: buzinas e freadas. Apenas um temor angustiante e inexplicável, tão comuns nessas ressurreições matutinas, lhe abateu, como se previsse algo ruim, um pessimismo generalizado, insinuando que tudo contra si conspirava. Melhor levantar e enfrentar o dia.

Afinal, quando decidiu abrir a janela em detrimento da lâmpada de cem watts, Vivi não achou o sol tão ruim assim. Tomou banho gelado em seu abrigo íntimo revestido de cerâmica branca, acariciou-se sob o pretexto de se limpar e depois sem pretexto algum. Tomou café, ou melhor, leite longa vida com papaya. Leu jornais no computador, checou em vão novos e-mails. Manhã linda, até já se apagara o temor dos lençóis.

Resolveu passear na ciclovia da avenida beira-mar. Tênis branco, shortinho, blusinha azul, rabo-de-cavalo, óculos escuros e disc-man. Deslumbrou-se sorridente diante do espelho de corpo todo. Havia uma leve e tênue capacidade translúcida em seu shortinho branco; observando com boa vontade, talvez se pudesse vislumbrar o negro dos pêlos. Que delícia andar a vontade em Floripa! Essa frase repetia toda vez que saía de bike.

Desfilando lépida sobre o tapete de concreto desenrolado entre os automóveis desvairados e o mar, sentia-se radiante com o bem estar de seu corpo, com a consciência do prazer causado pela atividade muscular, com o bom humor característico de quem sente a vida de bicicleta. Bom humor que lhe exprimia alegrias indefectíveis do azul soberbo do céu sobre os prédios repletos de luz, sobre as montanhas cravejadas pela madeira enegrecida dos barracos, dessarte luminosas também, graças ao sol da manhã primaveril e à endorfina usada para camuflar as dores do esforço.

Um sorriso, outro e outro, algumas vezes grosseiros, de canto de boca torta, mirando nas coxas, nos seios duros e dinamizados pela trepidação, depois nos olhos azuis de Vivi. Todos a excitavam e lhe energizavam ainda mais. As pernas sentiam mais e mais vontade de pedalar, de flertar, de fazer amor. Uma hora pedalando e não sentia cansaço, queria voltar, quiçá cruzasse novamente com o rapagão sorridente com cara de propaganda de creme dental. E voltou, o encontrou, detectou seu sorriso e o retribuiu olhando para trás. Mas, como se distraíra, atravessou direto o cruzamento, invadindo a arena negra dos automóveis.

O carro vermelho a sua frente, com seus olhos-faróis, parece um animal assustado, melancólico e apreensivo com o desfecho do encontro. Vivi imagina quatro ou cinco possibilidades de trajetórias e manobras que o carro poderia usar nesses três metros que a separam da morte. Ela estancara sua bike com o susto, pensou em pular para a frente ou para trás, mas suas pernas não têm força suficiente para impulsionar sessenta quilogramas a dois metros em um quinto de segundo. Esse quinto de segundo permite duas substanciais reflexões, ou melhor duas sucessões poéticas pré-adeus: no primeiro décimo vê o braço do rapaz esticar-se lentamente, gritando em câmara lenta, vê o movimento da boca e dos olhos de seu flerte horrorizado, enquanto ouve pelos fones do disc-man um ou dois acordes de Vivaldi que lhe soam e lhe afetam como se fossem uma sinfonia completa repleta de significados sobre a vida, sobre o cosmo, sobre o amor. No segundo décimo a morte está a um metro e meio, arrastando-se em sua direção com as rodas travadas. Pensa em pensar algo importante antes de morrer, em ver o famoso filme da despedida, em julgar a si mesma e se arrepender, em menos de um décimo de segundo, de todos os erros cometidos, de todos os perdões não aceitos e não ofertados. Mas não pensa em nada disso, só pensa que tais pensamentos talvez não existam, talvez ela não seja capaz de os ter ou apenas ainda não esteja preparada para morrer e ponderar sobre a vida. No vigésimo de segundo restante deixa de ter consciência sinestésica, a lata do automóvel gentil colhe seu corpo e o cospe da bike, formata seus braços, pernas e tronco ao capô e lhe projeta ao alto. Em sua viagem aérea ainda vê uma última imagem: o capacete esquecido sobre a mesa. __ Me fodi! E desmaia antes de chegar ao chão.

Eder Giovani Savio





Bruxas metamorfoseadas em bois (Franklin Cascaes)


O Policarpo Estevo possuía, para seu trabalho de lavoura, um carro de bois muito bem feito e duas juntas de bois, uma malhada e outra rosilha, domados para carro e engenhj. Na época de colonização da Ilha de Santa Catarina pelos açorianos - em 1748 - já um pouco avançado em anos, o carro de bois era o veículo que servia para o transporte de casamentos, batizados, passeios, mudanças, enterros e também para transporte de mandioca, cana-de-açúcar e lenha para os engenhos de fabricar farinha de mandioca, açúcar e também para os alambiques.

Numa manhã de sol ilhéu muito claro, bateram palma no terreiro da casa do Estevo, que ficava na Ponta das Pedras, atualmente Morro das Pedras, parte sul da Ilha de Santa Catarina.

Estevo atendeu prontamente. Era o Zé Jão Santa Cruz, morador da vargem do Queitaninho, um famoso médico curandeiro, natural de antanho, da Ilha de Santa Catarina, e que pensava em mudar-se para a Ponta das Pedras.

O Zé Jão nasceu numa Sexta-Feira Santa às 18:00 horas do dia, sob as vistas vigilantes da parteira aparadeira, a Sinhá Larica, da Praia Mole.

A madame História popular previne que, quando uma criança nasce na Sexta-Feira Santa, deve-se apanhar um grilo verde, colocá-lo dentro da mão esquerda dela e apertá-la até o bichinho morrer. Este cuidado, a parteira Larica cumpriu, e o Zé Jão tornou-se o maior médico curandeiro milagreiro da Vila do Desterro.

Certa feita, ele havia tomado parte numa conversa ao pé do fogo de trempe, onde, entre outras coisas de assombração, falaram que, na Ponta das Pedras, no meio daquele aglomerado de pedras miúdas que fica entre a Praia das Areias e a Praia do Mandu - uma delas se destaca em altura e é conhecida como Pedra da Feiticeira -, bandos de mulheres bruxas metamorfoseadas em ardentes fachos de fogo dançantes se divertiam a ainda se divertem a valer, após terminarem as estrepolias que praticavam nas comunidades nas sextas-feiras às desoras.

Como grande batalhador que era contra o reino da bruxaria e suas filiadas, o Zé Jão não podia, de forma alguma, deixar de oferecer combate sem quartel àquelas mulas-sem-cabeça, petulantes e descaradas, que vinham judiando dos adultos e das inocentes criancinhas indefesas da Ponta das Pedras, pois o que ouvira da boca dos comentaristas era simplesmente aterrorizador. Retirou-se, pensou calmamente no caso, entrou em êxtase captador de ultramundos e voltou ao ambiente onde as pessoas estavam reunidas comentando os acontecimentos e afirmou para todos, com voz cortante e ameaçadora: "Combaterei uma por uma, sem trégua nem légua!" E pensou: "Pra que eu pratique tal ato piedoso em defesa das pessoas deste lugá, perciso ter certeza da verdade verdadeira dos fatos que osvi através dos curados dos mos osvidos".

Na casa do Policarpo, entre as conversas importantes que o Zé Jão teve com ele, a que mais importância lhe atingiu foi a conversa ao pé da trempe, quando ele ouviu falar com relação às atividades bruxólicas ali praticadas por mulheres de poderes diabólicos muito chegadas ao reino de Lúcifer.

O Policarpo afirmou-lhe, com precisão incisiva, que a conversa que ele ouvira lá no Retiro da Lagoa da Conceição era eivada só de verdades verdadeiras das estórias ilhoas, como nas Ilhas dos Açores, aqui também conhecidas.

Depois de um gole de café tomado na porta, justamente onde ele estava sentado in riba do portal da mesma, pois não quis entrar porque estava fazendo muito calor, ocorreu-lhe um pensamento de alugar uma casa ali na Ponta das Pedras e mudar-se com a família. O Policarpo prontamente cedeu à vontade dele e falou-lhe que tinha uma casa de moradia junto a um engenho de farinha, bem ao lado da saída do caminho velho, na Lagoa do Peri.

Firmaram o negócio, e o Zé Jão deixou-o apalavrado com sete fios de sua barba como reféns documentários e partiu de volta para a sua casa lá na Vargem do Queitaninho, no norte da ilha. Naqueles tempos memoráveis do início de nossa colonização açoriana, os homens arrancavam um dos fios de sua barba e o davam como documento em troca de casas, gêneros, animais etc.

Quando chegou em casa, após um descanso entre goles de café e indagação da família das coisas cá do Sul da Ilha, o Zé Jão adiantou-se:

- Penso em mudar-me para lá, pois já dexê uma casa apalavrada e assinada com fios de minha barba.

A família concordou e trataram de preparar o espírito para levarem a cabo a mudança. Passados alguns dias depois de seu regresso lá daquelas bandas do sul da ilha, ele recebeu a visita de um cavalheiro bem apessoado com uma montaria muito bem organizada, que o procurou para curar uma filha de 16 anos, que estava sendo vítima passiva de um encosto espiritual meio confuso. O Zé convidou o homem para entrar no seu consultório curandeirista, apanhou um banco de madeira, ofereceu para seu cliente sentar-se e colocou-se de prontidão para ouvi-lo.

- Antão, mo sinhôri - indagou o Zé Jão - o que é que faz aqui por esta banda da Vargem do Queitaninho?

Respondeu o seu cliente:

- Me dissero que o sinhô é um dos maió médico curandeirista de antanho que mora aqui in riba das terra da ilha de Santa Catarina. Como eu tenho necessidade de pricurá uma pessoa qui nem o sinhô, que é munto intindido das coisa dos otros mundo, eu pricurê viajá inté aqui pra mo de consurtá vossa mecê. So Zé Jão, eu tenho uma fiia de dezasseis ano que tá sendo aperseguida por um máli munto istranho. Toda noite ela iscuta a voz dum isprito esfomeado que chama ela pro mato. Só ela osve a voz e sabe o que é que ele qué, mági não pode contá pra ninguém sinão ele mata ela. Sinhô! Duns tempo pra cá, ela anda meio desquarada, das perna e barriga inchada e munto pensativa. Eu tive falando pra minha muié que os isprito e encosto de agora tão ficando munto otoritaro, pois inté proíbe a gente, que é pai, de acompanhá as fiias que eles tão usando como veículos povoadô.

O Zé Jão escutou as lamúrias povoadoras do cliente com muito carinho e apanhou um cigarro papa-terra, que estava guardado atrás da orelha, acendeu, colocou na boca para receber a atuação da vontade inspiradora do vago simpático, apanhou um punhal de prata que estava junto da sua ferramenta cirúrgica anti-bruxólica, benzeu o cliente no peito e nas costas, bocejou demais devido à força do malvado encanto de olhado que ele carregava e diagnosticou com exatidão exata:

- Mo sinhôri, o esprito que chama sua fiia no mato é pai de seu neto, que vai chegá na sua casa por estes dias. Ele está viajando há nove meis e uns dôs o treis dia e, a qualqué hora, ele bate na porta de seu vovô. Trate de arranjá um padre pra mó de casá a sua fiia, pra que o soneto não encontre o pai chamado morando no mato ainda, desde o dia em que ele ganhô viage fetal pra adespôs engajá neste mundo estrambólico.

O homem achou o Zé Jão um grande adivinho, embora meio envergonhado pela clareza dos fatos expostos, mas despediu-se muito agradecido. Como o tal homem morasse na Ponta das Pedras, Zé Jão aproveitou a oportunidade para pedir-lhe que ele transmitisse um recado ao Policarpo pra mó de vir na Vargem do Queitaninho buscar-lhe a mudança para a Ponta das Pedras. Um detalhe, porém: ele esqueceu-se de pedir ao homem avisar ao Policarpo que não fizesse a viagem durante a noite, para evitar aborrecimentos bruxólicos.

O Policarpo recebeu o recado de Zé Jão com muito carinho, chamou o Cipriano da Muca, jungiram os bois à canga do carro e, às sete horas da noite, partiram rumo à Vargem do Queitaninho. O Policarpo pôs-se de chamador na frente dos bois, calçado de tamancas e com uma aquilhada muito comprida sobre o ombro, enquanto que o Cipriano, também de aguilhada em punho, pôs-se de gajeiro atrás do carro. Entraram pelo caminho de Mato Dentro, Lagoa do Jacaré, viajando sem novidades; porém, logo que começaram a descer o morro do Badejo, avistaram uma porção de chamas de fogo boiando nos ares que se deslocavam na direção deles. De repente, aquele mundo de fogo se jogou dentro do carro de bois. Num repente, o chamador e o gajeiro acharam-se metamorfoseados em bois, orelhas (1) furadas, uma corda amarrada em cada furo e jungidos à canga. Os bois dentro do mesmo, guiando-os como se fossem criaturas de argila humana crua com cérebro e tudo. Isto significou os fabulosos poderes do mal, donde o Policarpo e o Cipriano, o chamador e o gajeiro, metamorfoseados em bois e os bois metamorfoseados em Policarpo e Cipiano, através do poder quase ilimitado de mulheres bruxas, que enfeixam, na sina de seus poderes diabólicos, as leis rubras do Reino de Satanás.

Depois delas haverem judiado muito com eles por caminhos tortuosos, buracos, subidas de morros, abandonaram-nos lá na única praia da Lagoa da Conceição, hoje sepultada com barro, asfalto e lajotas, com quatorze sepulturas com cruzes de coqueiros. Ali o Policarpo e o Cipriano perderam o encanto acidental e os bois também, sentados na areia da praia da ex-praia única da Lagoa da Conceição. Entreolharam-se, benzeram-se, rezaram o Creio em Deus; embora muito abatidos física e moralmente, tomaram depois o caminho do Canto da Lagoa e mandaram-se para a casa.

Ao chegaram em casa, bateram na porta e avisaram para a pessoa que os atendeu que não acendesse luzes e que aguardasse um pouquinho a razão, pois logo em seguida a comentariam.

É crença popular que, quando se é atingido por assombrações e consegue-se fugir dos seus poderes mortíferos, ao se procurar abrigo, este não deve receber a vítima com luzes acesas.

Durante a noite, eles tiveram pesadelos horríveis e, até certo ponto, difíceis de criaturas humanas os analisar. Enquanto eles sofriam essas horríveis torturas em suas casas aqui na Ponta das Pedras, o Zé Jão, lá na Vargem do Queitaninho, também não foi dispensado. Durante a noite, o bando de megeras mulheres bruxas pintaram o Judas por riba da casa dele, das matas, com os animais que berravam, cães que latiam e uivavam, galos que cacarejavam, cavalos que relinchavam, sapos que coaxava, rasga-mortalhas que voavam e deixavam no ar rasgos de agoiros predizendo a presença da morte.

A casa do Zé Jão, nem a família dele, nem nada que lhe pertencia foram atingidos pela vingança bruxólica das megeras bruxas que, ele bem sabia e tivera conhecimento, estavam infestando a Ponta das Pedras. Dormiu descansado e, no dia seguinte, montou o cavalo e partiu para a casa do Policarpo. Ora, é lógico, curandeiro inato que era, espiritualmente ele tomou conhecimento, durante a noite, de tudo o que havia passado sobre sua casa e com os dois amigos, o Policarpo e o Cipriano.

Ele sabia, ora se sabia, e tinha plena certeza de que as megeras estavam preparando uma cilada para derrotá-lo. Isto porque sua bisavó, há muitos anos, lhe havia avisado, pois quando ela ainda era bruxa, tomou parte de uma reunião bruxólica, nos rochedos da Ponta das Garças, Praia da Joaquina, que foi convocada especialmente para tratar do seu prestígio curandeiro aqui no Desterro.

A velha havia sido uma autêntica bruxa, parte nos Açores e parte aqui na Ilha, pois ela mudou-se para cá com aproximadamente vinte anos de idade. Para sua felicidade, ela foi apanhada numa armadilha feita com um baú de folha de flandres e uma vela benta na Sexta-Feira Santa, ocasião em que perdeu a triste sina do fato.

Vamos ao caso.

O Zé Jão apareceu na casa do Policapro urrando que nem leão ferido. Cada uma das vítimas apresentou suas queixas contra os fatos acontecidos e juraram vingar-se das megeras.

O Zé Jão, ao anoitecer, apanhou um pouco de mostarda e colocou-as no bolso da calça; na boca colocou um dente de alho vestido com a casca e partiu, muito seguro, para junto das Pedra de Feiticiera da Ponta das Pedras.

Num repente, quando ele se aproximou da pedra e olhou-a de frente, notou que ela ficou coberta de chamas e luzes de várias cores e formas do mundo objetivo das coisas que fandangadeavam, cachimbavam, uivavam, latiam, lancinavam, gargalhavam, debochando da presença dele ali.

A princípio o Zé Jão se acovardou com o quadro sinistro e aterrorizador diante de seus olhos humanos, embora de um curandeiro de alta capacidade espiritual, protegido pelas virtudes milagrosas curandeiristas naturais ganhas de sua madrinha parteira aparadeira, através do sacrifício e morte de um inocente grilo verde. Antes de iniciar o combate para enfrentar corpo a corpo a luta contra o poder das chamas diabólicas do inferno que se haviam colocado em riba da Pedra da Feiticeira, ele pensou sete vezes por onde devia iniciar. Sim! Recuperando as forças físicas num pialo, meteu a mão no bolso da calça, apanhou as mostardas e atirou-as contra o fogaréu bruxólico, que, num abrir e fechar d´olhos, se extinguiu rapidamente. E o que aconteceu? O resultado foi o de um bando de mulheres nuas enfeitando as pedras pequenas onde ele se achava e pedindo-lhe clemência e proteção, à moda ilhoa. Entre o bando das ex-bruxas, estava uma, que havia sido namorada do Policarpo e depois noiva durante sete anos.

O Policarpo deu uma gola nela numa festa do Divino da Freguesia do Ribeirão. Ela já era bruxa quando foi namorada dele, porém ele não sabia e nem desconfiava. Devido à gola dada por ele, ela procurou vingar-se e justamente na ocasião em que ele mais o Cipriano dirigiam-se à Vargem do Queitaninho para apanharem a mudança do Zé Jão para a Ponta das Pedras, atualmente Morro das Pedras. Ela sabia, e isso ela comunicou para a sua chefe, que o Policarpo está interessadíssimo em trazer o Zé Jão cá pro sul da Ilha, com a finalidade exclusiva de dar-lhe combate.

Com o alcance dessa vitória, o Zé Jão firmou-se no conceito das comunidades ilhoas desterrenses com o título de maior médico curandeiro até então acontecido aqui nesta ilha (já denominada) de Iurumirim, Los Perdidos, dos Patos, de Nossa Senhora do Desterro, de Santa Catarina de Alexandria e dos muitos discutidos casos e incomparáveis ocasos raros.

FRANKLIN CASCAES - 1954

(1)Segundo o depoimento de várias pessoas consultadas, a junção entre os bois de uma parelha se faz não pelas orelhas mas pela ponta das aspas, o que favorece a hipótese de um equívoco do narrador (O. Furlan)
Franklin Joaquim Cascaes nasceu em 16 de outubro de 1908 na localidade de Itaguaçu, que na época pertencia ao município de São José, vizinho a Florianópolis, e hoje pertence à Capital. Como artista, foi autodidata, registrando, com a escrita, o desenho, a escultura e o artesanato, o universo legado pelos antigos colonos açorianos através dos seus descendentes. Cascaes faleceu em 15 de março de 1983. A história que segue, assim como essa breve apresentação, foi extraída do livro "O Fantástico na Ilha de Santa Catarina" (2° ed. - Florianópolis: Editora da UFSC, 2000, v.2, 107p.)

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